De bengala, camiseta preta do Ramones, sua banda favorita, calça jeans encardida e um pouco rasgada, José Antonio, o Zé, entra na sala da sua casa e logo se senta para descansar a perna. Sento também e pergunto: “ainda dói muito a sua perna?”. Ele aproveita a brecha e desabafa.

“Dói para dormir. Mas o problema mesmo não é dor. É todo o resto. Não consigo mais dirigir, não posso andar por muito tempo, não trabalho mais. Perdi minha independência, na verdade. Meu casamento (ele abaixa o tom de voz) só tem piorado. A gente briga toda hora e ela não perdoa o que aconteceu. Eu era bonitão agora to todo torto”. Ele suspira. Eu permaneço em silêncio.

“Você quer saber do acidente não é? Minha rotina era assim: eu saía às 4h da manhã e ia até a padaria da Rua Melo Alves, nos Jardins, pegar os pães para entregar, e depois ir trabalhar, no Banco Itaú. Mas antes eu saía com uma mulher, era a única. Quando nos encontrávamos eu passava pela Rua Augusta porque levava ela até o Largo da Batata. No dia 6 de fevereiro de 2004 eu estava levando ela, às 6h da manhã, quando entrei na Augusta. Veio um carro, uma Pajero, com dois homens bêbados fazendo racha, e eles bateram de frente no meu carro. Deu perda total, e eu quase morri. Cheguei a morrer de verdade. Eu não me lembro de nada, mas minha irmã me disse que eu fui ressuscitado pelos médicos do resgate”.

Com a mulher que estava no seu carro e com os dois homens que bateram, não aconteceu nada. Eles tiveram apenas ferimentos leves e logo saíram do hospital. Mas com o Zé foi grave. Ele ficou 20 dias em coma e depois mais dois meses internado. Teve fratura exposta na perna e traumatismo craniano, perdeu parte do joelho e quase todos os dentes, quebrou um braço e teve um problema neurológico que afetou seu olho direito.

Da época em que ficou no hospital não se lembra de quase nada. Quando foi para casa teve uma infecção muito forte na perna. Por causa desse problema passou mais quatro anos indo ao médico sempre e fazendo diversas cirurgias, 22 no total, para corrigir a perna. “Fiquei três anos usando uma gaiola na perna. Um negócio de ferro que dava a volta na perna, por fora mesmo, para segurar o osso. Não conseguia sentar e nem dormir direito por três anos. E hoje, seis anos depois, eu ainda não estou totalmente recuperado e nunca vou voltar a ser como era antes. Ando com um pouco de dificuldade, tenho que usar bengala, meu olho está estranho e tomo muitos remédios”.

Ele se interrompe. Pede para pegar uma cerveja na cozinha. Eu estranho, mas espero. Ele volta com uma lata, escrito Líber, e explica que é uma cerveja sem álcool, que é só o que ele tem tomado nos últimos anos.

“Acho que aquele dia mudou toda a minha vida. Aquele segundo às 6 horas da manhã, me deixou assim por seis anos. Bom, mas eu era muito diferente antes. Você lembra? Eu trabalhava muito, estava sempre na rua, bebia, fumava, me divertia com amigos. Meu casamento era bom. Todo final de semana todo mundo da rua já sabia, tem churrasco no Zé”.

Os churrascos aconteciam em sua casa, no andar de cima. Um espaço grande e aberto, com uma churrasqueira e muitas mesas. Era seu lugar preferido na casa. “Hoje quase não subo lá. Minha perna não aguenta escadas e nós ainda não colocamos corrimão”.

A casa é grande, mas parece inacabada. Ele, sua mulher Nice, com quem é casado há 20 anos, e seus dois filhos, Matheus e Fernanda, moram lá há 15 anos. Nesse tempo fizeram muitos churrascos e deram muitas festas, mas não terminaram a reforma da casa.

Eles têm mania de grandeza. Gastam mais do que podem, se enchem de dívidas, e o Zé, dá sempre um jeitinho bem brasileiro de resolver os problemas. “Ele é malandro. Faz gato na casa dele para não pagar conta de água e de luz. Tá sempre procurando um jeito de ganhar dinheiro fácil. Mas é boa pessoa”, diz sempre sua irmã, sete anos mais velha. “E ele sempre foi assim. Desde pequeno não estudou. Dizia que isso não era para ele. Parou na oitava série. Por isso ficou 22 anos trabalhando no Itaú, no mesmo cargo, porque ninguém ia promover ele. Ele não tinha estudo. Mas ele se acomodou”, diz ela rindo.

Enquanto conversávamos sobre a casa, chegou um amigo da família, que entrou sem tocar a campainha. Pergunto quem é. “É o negão, nosso amigo de muito tempo. Ele veio pegar umas ferramentas. Deixa eu ir lá ajudar”. Aproveito e converso com sua mulher.

“O acidente mudou a vida de todos aqui em casa. Na época, com a história da mulher fiquei muito mal, com muita raiva, mas fiquei preocupada demais. Eu ia visitar ele, mas não deixava que ele me visse. Falei com a mulher, Jane, ela ficou alguns dias no hospital. Não era bonita não. Quando o Zé voltou para a casa e começou a se recuperar, ele ficou muito carola, falava toda hora de Deus, agradecia, ia na igreja, em centro espírita. Mas depois passou. Ele nunca foi disso mesmo, eu até estranhava aquele Zé. Mas de qualquer forma ele mudou, não bebe, não fuma, ficou muito mais nervoso e irritado, não tem mais paciência, não quer mais fazer festas aqui em casa, não faz mais churrascos, até porque é difícil para ele subir no andar de cima. E ele era muito animado, sempre foi muito bonito, era magro, cheio de vida. Agora engordou, envelheceu, perdeu a animação de antes. O único prazer de antes que ele ainda tem é o futebol. É a distração dele”, conta a mulher dele, Nice.

Ele volta. “O negão já foi”, diz. “Daqui a pouco tem jogo do Santos, o que mais você quer saber?”. Eu pergunto: o que mais você quer contar?

“Do passado não tenho mais o que falar. Nem do presente. Acho que agora é o futuro. Vou cuidar do meu pai, que está morando comigo desde que minha mãe faleceu, dos meus filhos, que precisam de mim e vou rezar para não sofrer um acidente de novo”.