A flor de lótus azul nas costas, desenhada há três semanas, representa vitória, conhecimento e inteligência. Foi essa definição que convenceu Thayana Alves a fazer sua primeira tatuagem. O significado traduz a personalidade dessa menina de 21 anos, que gosta de falar sobre sua vida.

Vitoriosa ela é. Enfrentou uma dificuldade que boa parte dos brasileiros conhece bem: conseguir cursar o Ensino Superior. Mas isso só aconteceu porque ela não desistiu e insistiu em tentar uma bolsa de estudos integral pelo ProUni – Programa Universidade para Todos.

O programa é uma iniciativa do Ministério da Educação (MEC), criada em 2004 para oferecer bolsas de estudo em instituições de Ensino Superior particulares. O objetivo é permitir que mais jovens tenham acesso à universidade, disponibilizando bolsas parciais e integrais por todo o país. Só no primeiro semestre de 2010, o programa ofereceu 165 mil bolsas de estudo.

Para conseguir o benefício o estudante precisa se encaixar em alguns critérios de seleção. Primeiro é preciso ter estudado durante todo o Ensino Médio em colégios públicos ou ter tido bolsa de estudo integral em colégio particular. Depois, a renda média familiar não pode ultrapassar o valor de três salários mínimos. E por último, o estudante deve obter uma pontuação mínima no Exame Nacional do Ensino Médio – Enem – daquele ano. As oportunidades de bolsas são distribuídas de acordo com a classificação do candidato nessa prova.

Na primeira tentativa de conseguir o ProUni, Thayana não passou porque, apesar de se encaixar no perfil dos beneficiados e ter ido bem no Enem, ela ficou na lista de espera do programa, que tem muito mais candidatos que atendem aos requisitos do que vagas nas universidades para recebê-los.

Assim como Thayana muitas pessoas ficam de fora do programa. No entanto,  recentemente foi noticiada a história de três garotas que estudavam Medicina na Uningá, no Paraná, com bolsas ProUni, sem precisar do benefício. As três eram de classe média alta e possuíam carros novos e casas em bairros nobres.

Essas três meninas preencheram vagas de jovens como a Thayana. E tornaram a situação de estudantes como Jaqueline de Oliveira ainda mais injusta. A Jaque, como gosta de ser chamada, não pode concorrer a uma bolsa de estudos pelo programa porque estudou em colégio particular durante o Ensino Médio. Hoje estuda Psicologia na FMU, mas a situação financeira de sua família não é tão boa como era na época.

O caminho até a faculdade

Desde pequena Jaque mora só com a mãe e com a avó. Filha única, os pais se separaram quando ela ainda era criança e seu pai nunca a ajudou. “Nem financeiramente e nem emocionalmente. Ele nunca deu pensão e nunca participou da minha vida. Sempre fui só eu e minha mãe. Ela foi pai e mãe para mim”.

No colégio era cheia de amigos e saía muito. Não gostava de namorar. “Eu só enrolava os meninos”. Nunca precisou trabalhar enquanto estudava. “A situação às vezes apertava, mas nunca faltou comida na minha casa e minha mãe nunca me pediu para trabalhar”. Jaque, porém, se sentiu no dever de procurar um emprego depois de se formar no Ensino Médio.

Foi a primeira de todas as suas amigas a começar a trabalhar. “Queria minha independência, ter meu próprio dinheiro e não queria mais ficar gastando o da minha mãe”. Esforçada e decidida, conseguiu um emprego na faculdade Anhembi Morumbi, onde ficou por um ano.

Entrar na faculdade era algo quase óbvio dentro dos planos de futuro de Jaque. Dividida entre Direito, Psicologia e Moda, procurou uma orientação vocacional e descobriu no trabalho da psicóloga, que a ajudou, o que ela queria ser na vida.

A mensalidade do curso de Psicologia na FMU - onde ela queria estudar – era cara. Por acaso, ela conheceu o ATST, Associação dos Trabalhadores sem Terra. Essa instituição oferece bolsas de estudo para seus associados. Porém, para fazer parte é preciso frequentar reuniões e acompanhar o trabalho da associação. Quem não participa perde o direito à bolsa.

No começo Jaque usou o desconto que ganhava deles para ajudar na mensalidade da FMU. “O desconto era só de 10% e as reuniões eram muito chatas, não dava tempo de estudar, trabalhar e ainda fazer parte da associação. Mas o desconto me ajudava, então eu continuei”.

Por sorte, sua mãe, que é funcionária pública, faz parte de um Sindicato que também oferece bolsas de estudo aos seus membros. Ela conseguiu 20% de desconto com eles. E com isso ficou muito fácil estudar.

Há oito meses, ela também mudou de emprego, e o salário de R$ 700,00 tem ajudado bastante. “Agora, como eu trabalho, eu pago metade da faculdade e minha mãe a outra metade. Mas eu ajudo muito ela nas contas de casa, e tudo que eu gasto saindo com amigos e comprando os materiais da faculdade, sou eu que banco”.

Dedicada e persistente, Thayana virou adulta antes do tempo. “Meus pais trabalhavam fora o dia todo, quando eu era criança, e eu passava o dia todo em casa cuidando dos meus irmãos mais novos. Não saía muito para a rua, por causa deles. Até brinco hoje com minha mãe, que eu não tive infância. Mas quando percebi isso eu já não era mais criança”.

Mesmo com dois irmãos mais velhos que não chegaram a completar o Ensino Fundamental, e com a situação financeira muito difícil da sua família, Thayana sempre fez questão de estudar.

Com 13 anos, ela decidiu que queria trabalhar. Foi ajudar a família na feira e levava isso muito a sério. “Só tinha folga de segunda-feira. Eu trabalhava das quatro da manhã até às cinco da tarde, e estudava à noite. Ficava cansada, mas eu queria ajudar meus pais e ter meu dinheiro. Sempre fui muito independente”.

Tanto trabalho não permitia que ela se divertisse e tivesse amigos como a maioria das adolescentes. “Nunca fui de ter muitos amigos. Eu não ficava na rua, estava sempre em casa com meus irmãos ou trabalhando na feira”.

Para ela, estudar não era óbvio como para Jaque. O normal das pessoas à sua volta era não estudar, e só trabalhar. Mas ela fez os dois. Aos 16 anos, sofreu muito com uma decisão que foi obrigada a tomar: parar de estudar. “Mas era só por um tempo, eu sabia que ia voltar”.

Ela estava trabalhando em uma loja de roupas em um shopping e estudava à noite, no 2° colegial. O horário era muito apertado. Todo dia chegava atrasada nas aulas e não estava conseguindo acompanhar, mas precisava muito do emprego. A situação da família estava bem complicada, eles estavam morando de favor na casa de uma tia, e o pouco dinheiro que sobrava no final do mês usavam para construir a casa própria.

Filha de um pedreiro e de uma faz-tudo (como Thayana mesmo a define), e com mais quatro irmãos, o dinheiro que os sustentava não era fixo. Cada mês a renda era uma. Ficava difícil fazer planos para o futuro sem saber quanto teriam no final do mês. Por isso, Thayana sabia que não poderia largar seu emprego.

“Foi muito difícil tomar a decisão de parar o colégio. Meu coração ficou apertado. Era uma coisa que eu queria muito. Mas eu sabia que eu ia voltar, porque iria trabalhar, guardar dinheiro e quando a situação melhorasse eu voltaria”.

E ela voltou mesmo. Um ano depois conseguiu fazer um supletivo e recuperar o tempo perdido. Mas, para conquistar seu sonho da universidade foi outra pequena luta. “Colégio público não te dá nenhuma base. Tudo que eu aprendi na escola foi porque eu estudei sozinha em casa. E para ir bem no vestibular é preciso ter tempo para estudar. Tem gente que vai super bem nas provas, mas não dá para comparar uma pessoa que tem 24 horas para estudar com outra que precisa trabalhar o dia todo”. 

Mesmo sem tempo, ela encontrou força para passar no vestibular, ir bem no Enem e depois de alguma espera, passar no ProUni. Hoje, estuda Administração na UMC, o curso que sempre quis. “Eu sempre imaginei trabalhar com administração. Acho uma carreira muito bonita e que você pode fazer muitas coisas dentro dela. Mas eu quero trabalhar em uma área onde eu possa lidar com pessoas”.

A rotina universitária

Às cinco da manhã, o sol ainda não apareceu, mas Thayana já está na rua esperando a lotação. No caminho até a faculdade ela ainda pega metrô e trem. “Vem tudo lotado a essa hora. Sentar nem pensar”. De pé ou sentada, chuva ou sol, Thayana vai para a faculdade. Não gosta de faltar, mesmo cansada.

“Eu sei que são poucas pessoas que conseguem o que eu consegui, uma bolsa 100% em uma boa faculdade e em um curso que sempre quis. Por isso eu me esforço, é para mim mesma, não pelos outros, porque pra eles cancelar minha bolsa é fácil, mas isso é importante para mim, é o meu interesse, meu futuro”.

Depois de sair da aula, em vinte minutos já chega ao seu trabalho. Lá, ela é um pouco tímida e não é de falar muito. Mas basta conversar por algum tempo e descobrimos que ela é ainda mais parecida com a flor de lótus desenhada em suas costas.

Um lamaçal, cinza e sem cor. É no meio dessa paisagem triste que nasce a flor de lótus. Thayana não nasceu em um lugar feio como um lamaçal, só que à primeira vista ela pode parecer séria como ele, mas depois vemos uma menina simpática e delicada como a flor que nasce lá.

Ela trabalha em uma empresa chamada MaisEstudo, onde é atendente de Telemarketing. A sala branca com mesas separadas por divisórias laranjas e baixas, que permitem enxergar a pessoa ao lado, é preenchida exclusivamente por mulheres. Não de propósito, mas por coincidência mesmo.

As seis meninas que fazem parte do atendimento e que dividem essa sala, são muito amigas, conversam o dia todo e gostam de trabalhar lá. Thayana, apesar de ser mais quieta, é muito querida e muito amiga de todas e se diverte com suas colegas de trabalho.

Entre elas está também a Jaque. Bem mais extrovertida e falante que a Thayana, ela conversa muito e está sempre rindo e de bom humor.

Antes de chegar à MaisEstudo, todos os dias às 14h, Jaque também enfrenta um longo caminho. Ela mora no Carrão, estuda na Liberdade e trabalha na Barra Funda.

Às seis e meia ela pega um ônibus e depois um metrô até a faculdade. Estuda das oito às onze e meia. Depois almoça com a mãe, que trabalha perto da sua faculdade. “Almoçamos juntas todos os dias e depois vou para o trabalho”. No trabalho, chega sempre falante. Arrumada e bem vaidosa, ela está sempre com o cabelo bonito, as unhas pintadas, brincos, pulseiras, relógio.

Há algumas semanas, começou também um estágio não-remunerado em uma escolinha infantil. Toda quinta-feira das 15h às 17h cuida de mais de vinte crianças e acompanha o comportamento delas. Apesar de não ser a área em que pretende trabalhar, ela está adorando o trabalho. “As crianças são incríveis, muito fofas, educadas e organizadas. É muito legal observar como elas se relacionam e se adaptam juntas”.

A menina que tinha dúvidas sobre o que queria fazer da vida, se encontrou na faculdade de Psicologia. “É uma profissão encantadora, tem muitas áreas legais para trabalhar. Eu estou amando o curso, mas ainda não sei para que lado eu vou. Gosto de psicologia organizacional, do consumidor, hospital e jurídica. Ainda não sei o caminho que vou seguir”.

Mas ela sabe que quer casar com seu namorado daqui alguns anos. Há três ela o conheceu no desfile da Império de Casa Verde e desde então não se largaram mais. Ela também sonha em estar estabilizada em um emprego daqui cinco anos e fazendo pós-graduação. “Se tivesse algum benefício maior como o ProUni eu guardaria o dinheiro que sobrasse para fazer uma pós, estudar inglês e espanhol e aprender mais de informática”.

Agora que conseguiu chegar à universidade Thayana também sonha em se estabilizar em uma empresa, na área administrativa, mas em contato direto com pessoas. Ela, que namora há cinco anos, também quer se casar. Além disso, pensa em juntar dinheiro para poder viajar pelo Brasil e fazer aulas de dança de salão, que adora, mas nunca conseguiu pagar. “Quero conhecer o Brasil antes de qualquer outro lugar e quero ter minha casa para morar com meu marido e depois com meus filhos”.

As duas estudantes sonharam muito em entrar na universidade. Conseguiram. Agora sonham muito com o futuro – ter um bom emprego e uma família. Com certeza vão conseguir!

 

Jaque e Thay!