Havia tempo que a garota, antes uma menina, hoje uma mulher, não pensava nas suas recordações da infância.

Ela teve tanta coisa. Mais do que objetos que pudesse tocar, ela teve amigos, amor de uma avó muito especial, companhia de uma super irmã, espontaneidade de uma criança bem espivetada e uma imaginação insaciável.

Mas teve brinquedos também. Bonecas, casinhas, jogos, desenhos, canetas de colorir, tintas, carrinhos, bolas. Tudo muito simples, sem luxo, comprado pelos pais trabalhadores e esforçados.

Aquela menininha, que esparramava seus pertences pela casa, e por vezes, pela rua sem saída em que a avó morava, cresceu. Virou adolescente. Passou a achar que tudo aquilo era só tralha.

Deixou tudo lá, na casa da avó, palco principal de toda sua infância, junto com as suas lembranças e com a pessoa que mais a amou e a defendeu até aquele dia.

Partiu!

Abandonou tudo com facilidade. Mas sua avó, com a sabedoria de uma vida, deixou tudo guardadinho em seus lugares.  Ela sabia que cedo ou tarde a neta carinhosa viria buscar.

Passaram-se anos. Os brinquedos ficaram velhos, sujos, empoeirados, embolorados. A lembrança do que eles foram um dia estava cada vez mais distante da avó e da neta.

Em um dia qualquer do calendário a avó resolve ligar para a neta, pois sentia saudades. Orgulhosa, ela não queria assumir isso, afinal a neta não ligava há dias. A sábia senhora disse então:

- Oi filha, você pode aparecer aqui um dia desses para fazer uma limpeza nas suas coisas? Quero deixar aqueles armários arrumados!

Do outro lado da linha a garota sentia uma agradável e estranha surpresa. A avó não sabia, mas a neta nostálgica vinha pensando nas suas recordações deixadas naqueles armários, há dias e dias!